quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020





                                                               Eu  não sou Teu Negro
                                                                                            Bisa Butler


                                     As escravas do Islã 


Tomislav R. Femenick – Mestre em Economia, com extensão em sociologia e historia – Do IHGRN



             Os fiéis muçulmanos identificam o Alcorão como sendo a palavra de Deus, revelada ao profeta Maomé – equivalente à Bíblia, para os cristãos. E o Alcorão, na sura (versículo, capítulo) 16, reconhece a escravidão como uma instituição legítima: “Deus citou em exemplo um escravo que nada possui e em nada manda e um homem livre [...]. Podemos considerar os dois iguais? Não! Louvado seja Deus!” (O ALCORÃO, Tradução de Mansour Challita, s.d.). Em vários outros capítulos, há citações que coonestam o escravismo: quando determina a aplicação da lei de Talião para os homicídios (escravo por escravo); quando reconhece a preferência por uma escrava crente no Islã sobre os descrentes; quando permite ao um homem ter as escravas que puder comprar, com o direito de ter relações sexuais com um número ilimitado de escravas e concubinas, inclusive as casadas; ou quando recomenda tratar os escravos com benevolência etc.
          A mesma forma de aceitação explícita e implícita da escravidão está no Hadice, ou Hadith (coletânea de palavras e atos de Maomé, que complementa o Alcorão), quando prega a guerra contra aqueles que não aceitam a conversão ao islamismo, sua captura e escravização, bem como quando recrimina as fugas dos escravos. Entretanto, a maioria das citações versa sobre a escravidão de mulheres. Por exemplo: não se deve açoitar a esposa, como se fosse uma escrava; o pai pode dar uma escrava ao filho, como um presente sexual; após casar, ao comprar uma escrava ou um camelo, um homem deve rezar, nos dois primeiros casos, e procurar o refúgio de satã, no último; quando os seus donos morrem, as escravas devem esperar dois meses e cinco dias para casar novamente; se as escravas engravidarem de seus donos, estes podem determinar o aborto, se assim desejarem; se as esposas ciumentas fizerem algo de mal às escravas de seus maridos, as esposas devem ser punidas e os senhores devem continuar a possuir as escravas; as escravas que se dedicarem à feitiçaria podem ser executadas; os crimes de adultério, quando cometidos por homem, não podem ser compensados pela doação de uma escrava; as mulheres e crianças dos inimigos vencidos em guerra podem ser transformadas em escravas, porém não devem ser estupradas e recomenda-se que se tomasse banho depois de fazer sexo com escravas. O próprio Maomé tinha escravas e escravos, fato registrado na sura 33 do Alcorão e no Hadice Mishkat 470. Ali ibne Abi Talibe, genro de Maomé e líder dos xiitas, teve dezessete escravas como concubinas. No tocante à mulher escrava, em certos aspectos, o próprio Alcorão deixa margem a interpretações dúbias. Em uma sura está prescrito: “Não constranjais vossas escravas à prostituição se preferem a castidade. Já se forem compelidas, Deus lhes perdoará”.
Todavia, o escravo sempre teve reconhecida a sua condição de ser humano. Uma sura diz: “Certamente, Deus vos fez os seus amos, se Ele quisesse, teria da mesma forma vos submetido a eles como escravos”. Em outra está escrito: “Sede bondosos com vossos [...] escravos. Deus não ama os presunçosos e os soberbos”.
           Agora a pergunta que se faz é: qual a real extensão do envolvimento do islamismo, religião e forma de vida, com a escravidão? Realmente a prédica religiosa e a prática eram conflitantes entre si. No caso específico da África Negra, quando os maometanos lá chegaram, venceram, conquistaram e converteram povos com uma longa tradição de escravismo e continuaram “o padrão de incorporar escravos negros da África às sociedades ao norte do Saara e ao longo das costas do oceano Índico [...]. Durante mais de setecentos anos antes de 1450, o mundo islâmico era praticamente o único eixo de influência externa na economia política da África [...]. As províncias islâmicas centrais constituíam o mercado para os escravos; o abastecimento vinha das regiões de fronteira” (LOVEJOY, 2002). O tráfico de escravos africanos, praticado pelos islamitas, dava-se em duas vertentes principais: nas várias rotas transaarianas e na costa leste africana, pelo Oceano Índico e pelo mar Vermelho. Com base em levantamentos efetuados por alguns historiadores, estima-se que os muçulmanos foram os responsáveis pela venda de aproximadamente onze milhões de africanos escravizados (LOVEJOY, 2002), maior que o tráfico efetuado por europeus. Os fatos falam por si mesmo.

Tribuna do Norte. Natal, 12 fev. 2020.


Comentário:



 Meu caro Tomislav,


             Excelente pesquisa sobre os escravos, Alcorão e os descendentes de Maomé. Mas não vi qualquer referência a escravos e europeus cristãos, a Escravos e a Religião Católica Apostólica Romana que, muito tempo depois , além de se omitir pelo tema, ainda era verdadeiramente solidária aos senhores de escravos, traficantes e discriminadora em suas relações e atos religiosos. Não se pronunciou contra as atrocidades praticadas contra escravos, aqui e alhures, discriminando-os, excluindo-os da convivência social, sem qualquer apoio ou piedade, obrigando esses seres humanos, pelo menos no Brasil, a terem suas próprias capelas e religião, onde surgiram o candomblé, mistura de religiões próprias desses excluídos que eram tirados de suas terras, transportados como mercadoria, como animais selvagens e vendidos como "coisas"  nos mercados pelo Brasil afora. Enquanto isso, os cléricos viviam na ostentação, sempre adrede aos poderosos, bajulando-os e beneficiando-se de suas benesses, e usufruindo também da situação da escravatura para serem servidos, em todos os sentidos. Aliás, historicamente, não é só em relação aos escravos que a "Santa Madre Igreja" foi omissa... e você bem conhece a história. Mas... esse não foi um "privilégio" do Brasil, como a história demonstra!

Obrigado pelos seus escritos, você sempre nos enriquece com seus ricos relatos.


Abraços,

Jadir 


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