As mocreias do
senado federal
Tomislav
R. Femenick
– Jornalista
Comecei
a escrever para jornais menino ainda; na primeira metade dos anos 1950. Foi no
Jornal de Alagoas, órgão dos Diários Associados, então a maior cadeia de
comunicação do Brasil. Naquela época, nos jornais matutinos as matérias eram
redigidas à noite, nas redações, ao som do matraquear das teclas das máquinas
de datilografia e de programas de rádio. Sempre sintonizávamos alguma estação
“do sul”, para nos manter informados sobre os últimos acontecimentos. Não havia
internet e a televisão – esta, insipiente – só existia no Rio e São Paulo.
Uma
das estações que mais ouvíamos era a Rádio Tupy do Rio de Janeiro, que naquelas
horas transmitia o programa “Ali Babá e os Quarenta Garçons”, com humor e
música, o qual durante algum tempo foi apresentado pelo genial Chacrinha. Um
dos quadros retratava as Mocreias da Lapa, um grupo fictício de mulheres que
frequentavam os bares (não os cabarés) do bairro boêmio carioca e que
infernizavam a vida dos garçons, atrapalhando o seu trabalho e fazendo gozação
com tudo. O termo “mocreias” não
tinha nenhum significado pejorativo ou ofensivo que fosse, era entendido como “importunas, maldosas”.
Ao ver a impensada cena protagonizada pelas
senadoras Fátima Bezerra (PT-RN), Gleisi Hoffmann (PT-PR), Vanessa Grazziotin
(PCdoB-AM), Ângela Portela (PT-ES), Lídice de Mata (PSB-BA), Regina Sousa
(PT-PI) e Kátia Abreu (PMDB-TO), ocupando a mesa do Senado Federal e impedindo
que o presidente da casa presidisse os trabalhos, só me veio à memória as
peripécias das Mocreias da Lapa. Foi uma ação deprimente, em meio a risos
marotos, microfones sem som, luzes apagadas e, para completar, o quadro de decadência
total: almoço servido em quentinhas. Parecia um amoral piquenique de colegiais
que estavam faltando à aula, mas na verdade estavam faltando com o decoro que é
exigido às senhoras e aos senhores representantes do povo.
Tirado
a senadora Kátia Abreu, que em outros tempos já foi odiada pela esquerda e lá
estava simplesmente para obter visibilidade (ela é da bancada dos comendadores
da ordem da melancia), todas as outras são de esquerda e veem o embate político
como um meio para a imposição de suas ideias. Para elas a democracia é um meio
para se alcançar o poder e estabelecer um regime de força; por isso é que tecem
louvores a Cuba dos irmãos Castros e a Venezuela de Chaves (o sempre vivo que
virou passarinho) e Maduro.
Será
que a batalha travada pelas mulheres para participar ativamente da vida
política do país foi para que agissem assim? Acho que não. Não custa relembrar
que a luta pela participação das mulheres brasileiras na vida política começou
em Mossoró. A base foi a Lei Estadual nº 660, de 25 de outubro de 1927, que fez
do Rio Grande do Norte o primeiro a estender o direito do voto às mulheres. Um
mês depois, no dia 25 de novembro, o nome de Celina Guimarães Vianna, foi
incluído na lista de eleitores da cidade de Mossoró. O acontecimento teve
repercussão até no exterior, pois ela não somente era a primeira eleitora do
Brasil, mas, também, da primeira eleitora da América do Sul. Também foi em
nosso Estado que, em 1929, foi eleita a primeira prefeita do Brasil, Alzira
Soriano, na cidade de Lages. Além do mais, o Rio Grande do Norte, a nossa
capital e muitas cidades do interior já foram ou são governadas por mulheres.
Isso
tudo foi resultado de muitas lutas que não devem ser esquecidas, pois elas têm
uma visão muito peculiar sobre alguns problemas que nós homens não temos, daí a
sua importância na vida política. Compreendem melhor as necessidades da
população mais pobre, identificam com mais acuidade as lacunas do ensino e do
sistema de saúde etc. Assim, as mulheres não devem e não podem se apequenar,
tornassem pequenas praticando travessuras.
E
aqui vai um recado para a nossa representante que participou desse lastimável
espetáculo de mau gosto: dona Fátima Bezerra, na Política com “P” maiúsculo o
importante não é só aparecer ou vencer. Mais importante ainda é a natureza da
luta e como se luta; os fins nunca justificam os meios. Receber propina para se
eleger (seja o candidato da direita, do centro ou da esquerda) é jogo sujo.
Jogar cometendo faltas (mesmo que o juiz não veja) também é jogo sujo. Jogar
bonito para a plateia, para aparecer bem na fita e sem pensar no que resulta
para seus representados (os leitores) é jogo feio que pode não merecer cartão
vermelho do juiz, mas merece a reprovação dos eleitores.
Tribuna do Norte. Natal, 20 jul. 2017
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